O verão é provavelmente a época em que mais se ouve falar da Austrália ao redor do mundo ? e em geral as notícias não são boas. Este ano, a intensidade dos incêndios no estado de Victoria ? que mataram duas centenas de pessoas e deixaram cerca de 7 mil desabrigadas ? arrebatou as manchetes e somou-se ao noticiário sobre os extremos climáticos: do frio exacerbado nos Estados Unidos e na Europa às chuvas torrenciais no Sul do Brasil. Mas o fogo, ao contrário do que a dramaticidade das imagens que percorreram o globo podem ensejar, é um velho conhecido da Austrália, o mais seco continente habitado da Terra.
Mesmo que alguns dos incêndios recentes tenham sido intencionais ? a polícia de Victoria anunciou nesta sexta-feira a prisão de um homem acusado de iniciar o fogo na cidade de Churchill ?, fato é que eles ocorreriam naturalmente. O ecólogo australiano Tim Flannery afirma, em seu livro The Future Eaters, que ?o fogo é uma das forças mais importantes presentes nos ambientes australianos hoje?, mas destaca que nem sempre foi assim. Segundo Flannery, o papel do fogo mudou graças à extinção da megafauna e ao fato de que, devido à predação pelos humanos, os marsupiais que habitam o continente diminuíram de tamanho.
Animais de grande massa corporal, ao alimentar-se das plantas, mantinham limitada a quantidade de folhagem nos ambientes. Sem eles, as folhas e outros detritos da vegetação se acumulam, formando o alimento perfeito para o fogo. Os aborígenes australianos, embora sejam apontados como um dos prováveis agentes causadores da extinção da megafauna, acabaram aprendendo a lidar com o fogo, adotando um regime de queimadas periódicas para manter o ciclo de nutrientes do meio ambiente e impedir incêndios descontrolados. Tanto que o navegador James Cook, ao desembarcar na costa sudeste em 1770, chamou a Austrália de ?o continente de fumaça?. Detalhe: a esta altura, os aborígenes ocupavam o continente há, pelo menos, 40 mil anos.
?É verdade que o advento do fogo transformou a Austrália?, escreveu Flannery. ?Ainda assim, seus efeitos foram modificados por meio do controle do ?firestick? pelos aborígenes. Quando o controle foi usurpado dos aborígenes e colocado nas mãos dos europeus, resultou o desastre?.

Mas os australianos ainda parecem longe de um consenso sobre como evitar futuras tragédias. O pesquisador David Packham, da Monash University, responsabilizou os ambientalistas pelos incêndios de Victoria pois, segundo ele, ?agem como eco-terroristas? contra as queimadas controladas. Os ambientalistas, que em geral defendem a preservação dos ecossistemas, se defendem dizendo que o tema é complexo e não se pode generalizar políticas como a do manejo do fogo em um país tão grande. Acrescentam que é preciso discutir se é seguro destinar determinadas áreas do chamado outback para fins residenciais, dado sua vulnerabilidade ao fogo. O Partido Verde, me disse uma ex-senadora, não quer ser visto pela opinião pública como ?o partido do fogo?, e portanto se mantém, em grande parte, fora da discussão. Há quem aponte o dedo para os próprios bombeiros que, impedidos de praticar o manejo do fogo, seriam os responsáveis por iniciar incêndios que acabam descontrolados.

O que ninguém parece questionar é que, mesmo que uma política de queimadas controladas para evitar grandes tragédias como a Victoria seja acordada, a ameaça do fogo não vai desaparecer do ?continente de fumaça? tão cedo. As mudanças climáticas não podem ser consideradas a causa direta dos fogaréus que engoliram vilarejos inteiros nos últimos dias, mas provavelmente fazem parte de um ciclo que se reforça. O gradual aumento das temperaturas e a diminuição das chuvas nas últimas décadas contribuem para tornar a Austrália mais vulnerável ao fogo. E os incêndios, ao consumir toneladas de biomassa, contribuem para as emissões de gases de efeito estufa que causam as mudanças do clima.
No meio de tanta polêmica, há espaço para a inovação. Nos Northern Territories ? a porção norte da Austrália que permanece sob controle do governo federal e onde os aborígenes perfazem 31% da população ?, um acordo entre as comunidades locais e a empresa Conoco-Phillips ressuscitou as práticas tradicionais de controle do fogo. Quarenta por cento das terras de Arnhem ? uma das cinco regiões dos Northern Territories ?, são queimadas todos os anos, sendo que 32% sucumbem ao fogo durante a estação seca, quando o grande acúmulo de biomassa resulta em maiores emissões de gases de efeito estufa. Estima-se que m hectare queimado em maio, ao fim da estação úmida, libera metade da quantidade de gases que um hectare queimado em novembro, no auge da estação seca.
Pesquisadores calcularam que se a queima durante a estação seca pudesse ser reduzida de 32% para 20 a 25%, haveria redução das emissões de CO2 da região em 100,000 toneladas. A Conoco-Phillips, que opera uma planta de gás natural na região, concordou em entrar com 1 milhão de dólares australianos por ano ? por 17 anos ?, comprando os créditos de carbono resultantes do manejo do fogo pelas comunidades aborígenes.
por Flavia Pardini, colaboradora especial do Blog OC
de Perth, Western Australia