Consumo febril

abril 22nd, 2009

Ontem, 21/4, foi Dia de Tiradentes. Para alguns a possibilidade de feriado prolongado. Para outras, oportunidade de discutir como a história cria mitos. Para muitos outros, como bem noticiou a mídia, foi dia de compras.

O mercado de automóveis estava em festa, com grande procura da classe média que ignorou o contexto de crise, a situação caótica do trânsito nas cidades e o fato de que o IPI não representa nem R$ 50,00 na parcela de um carro novo. Nas diversas matérias da imprensa sobre a corrida às revendas, só apareceu o primeiro argumento. Os outros dois provavelmente desagradariam indústria e comércio.

Apesar da cara de domingo, na TV não tinha nem o Fantástico com matérias sobre o aquecimento global ou vídeos da série Vozes do Clima, para lembrar as pessoas de que mais do que conforto e pseudo-mobilidade, os automóveis são fontes de emissões de gases estufa. Já vai longe na memória da população a seca na Amazônia, o furacão Katrina e o desastre em Santa Catarina - fenômenos que materializam o potencial das catástrofes naturais que podem surgir das mudanças climáticas. Na imprensa, essas imagens também estão devidamente distantes, em subpastas digitais dos departamentos de arquivos.

Em mais dois meses acontecerá a reunião do G8, que atrai o olhar dos ambientalistas para saber o que dirão os presidentes participantes - com destaque para Obama, que vem sinalizando uma nova posição dos EUA na questão climática. Mas o dia 21/4 é de feriado, contrapor em uma reportagem a febre do consumo a questões como pegada carbônica ou o esforço mundial necessário para o combate à mudança do clima exigiria pesquisa e equipe com fôlego. Daí não termos visto nenhuma associação do tipo na mídia. Mesmo em veículos que têm feito ‘tudo’ pela sustentabilidade.

O que dizer então da COP-15, que acontecerá só daqui a sete meses. Seria pedir demais que os editoriais acendessem um sinal amarelo alertando para a incongruência entre os avisos dos cientistas sobre a urgência da crise ambiental e os recentes estímulos ao consumo de veículos e à adoção das térmicas em detrimento a outras fontes de geração de investimento, trabalho e capital ou a fontes de energia não-poluidoras, como os ventos que sopram sem parar no nordeste brasileiro.

O bom mesmo é curtir esse momento de euforia, que nos brindará com mais carros na rua, mais carbono e enxofre no ar, mais intensidade no efeito estufa, mais gente se endividando, mais certeza para os governantes que insistem na política de apoio às montadoras. Tudo isso na mesma data em que se comemora o mito de Tiradentes.

por Ricardo Barretto

REDD é especial, e ponto final.

abril 8th, 2009

Se a conversa aqui em Bonn não teve nenhum resultado palpável no que diz respeito a compromissos quantificados de Anexo I e não-Anexo I, pelo menos um encaminhamento interessante há muito esperado pelo mundo.org internacional aconteceu: a discussão sobre REDD finalmente chegou ao AWG LCA, o grupo de discussão mais político pro acordo pós-2012. Antes era uma discussão confinada ao SBSTA, o órgão de assessoramento técnico e científico da Convenção. Convenhamos: o REDD tem lá suas questões técnicas e metodológicas, mas o quente da discussão é pra lá de político. Vai ser mercado? Fundo? Abordagem mista ligada ao mercado? Quem pode fazer? Quem paga? Como paga? E os povos da floresta? E os países com baixas taxas de desmatamento, entram? Não entram? Nacional? Subnacional? E a biodiversidade? Como medir, reportar, verificar? Pode gerar créditos pros países do Anexo I ou é compromisso nacional dos países não-Anexo I?

Enfim, por todas essas questões, e após ouvir de todos os países na uma hora dedicada ao REDD no contact group de mitigação que era necessário mais tempo de discussão, o Chair Michel Zammit Cutajar, de Malta, finalmente concluiu que o REDD é especial. Ele passou essa mesma uma hora tentando defender que nenhuma medida de mitigação era mais especial que outra, que o pacote deveria ser discutido como um todo e que não havia, por exemplo, um grupo especial pra tratar de usinas. Imagina só se todas as questões sobre o REDD que foram levantadas acima pudessem ser respondidas em uma hora….Enfim, o resultado é que vamos ter mais discussão política sobre isso em Bonn 2 (nova rodada de discussões em junho), o que dá uma esperança de que esse mecanismo tão importante pro Brasil e outros países tropicais venha a ser de alguma forma contemplado no arranjo de Copenhagen. Digo ?arranjo? porque entre as diversas indefinições no ar há uma sobre a forma legal do novo acordo. Existe a possibilidade de que só tenhamos emendas aos acordos já existentes e não propriamente um novo instrumento.

Vale também destacar que houve discussão sobre REDD no contact group de transferência de tecnologia e finanças. Quem conduziu essa discussão foi o nosso Ministro Figueiredo, que agora está como Vice-Chair, e deu um exemplo da típica simpatia brasileira ao deixar todas as partes inscritas falarem apesar de já ter passado a hora para o fim da sessão. Quando o Chair é europeu, a sessão acaba na hora prevista e pronto, seja lá quem esteja inscrito pra falar: tolerância zero. Pelo menos nesse ponto da cortesia a atuação do Brasil foi digna de elogio.

Fernanda Carvalho - TNC

G20 e o universo integrado

abril 3rd, 2009

Todos felizes na reunião do G 20 dessa semana. Tapinhas nas costas, troca de elogios, os comentaristas econômicos cumprimentando as novas regras para o sistema financeiro e as bolsas subindo - todos como se tivessem sempre clamado por mais controle sobre a insanidade do mercado, como agora gostam de chamar.

Há quem diga que a crise passará mais rápido agora. E depois? Se as contas e fluxos monetários se estabilizarem mesmo, haverá tempo então para contemplar o resto da crise. A crise de excessos, certamente. A farra dos mercados talvez chegue mesmo ao fim, mas a farra com os recursos naturais rumo ao crescimento infinito já exige um outro olhar, ainda que faça parte da mesma compulsão da sociedade por ter sempre mais em lugar de vivenciar mais o que já tem.

O mais perto da sustentabilidade que o encontro do G20 chegou foi a reedição de um discurso já ouvido, conforme relata a Reuters: ?A respeito das questões ambientais, os líderes reafirmaram um compromisso de 15 meses atrás, relativo à aprovação de um novo tratado que substitua o Protocolo de Kyoto, e resolveram ?acelerar a transição? para um modelo econômico de baixa emissão de carbono.?

O que dá aquela coceirinha na cabeça é que se os homens de ternos e altos cargos ainda não tratam o desequilíbrio do mercado e o do meio ambiente como elementos de uma mesma crise, conseguirão propor, aprovar e por em prática medidas para vencê-la? A reunião do G20 foi capaz de estabelecer maior controle ao mercado de capitais e baixar a bola dos paraísos fiscais, mas nem passou perto de associar o fluxo financeiro com medidas para a sustentabilidade - crédito mediante comedimento no uso do que é tirado da Terra, por exemplo. Se o companheiro Lula lesse o post, a essa altura - assim como muitos outros companheiros - diria ?uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.?

A frase é o slogan do olhar que manteve as coisas como são até agora. Algo como a ?estátua sensível? de Condillac, na fase em que o universo é o cheiro do jasmim, conforme descreve Jorge Luis Borges em o livro dos seres imaginários. Em tempo, o personagem é um homem hipotético que acredita que o universo todo corresponde ao cheiro de jasmim. Lá pelas tantas, depois de outros sentidos atribuídos a ele por seu criador, permitindo novas comparações e experiências, é que lhe será revelado que existe espaço: ?e que no espaço ele está num corpo; os sons, os cheiros e as cores, antes dessa etapa, haviam lhe parecido simples variações ou modificações de sua consciência.?

Reconhecer-se como um corpo no espaço é o mote por trás da palavrinha já meio gasta - sustentabilidade. Este ano, a agenda dos homens de ternos e altos cargos traz uma nova chance de mostrarem que isso não é apenas uma variação do maravilhoso universo em que vivem. Esperamos que Copenhagen traga mais do que tapinhas nas costas.

 

 

 

Ricardo Barretto - GVces

 

 

Tá Bonn, mas podia estar melhor….

abril 2nd, 2009

Aqui em Bonn a discussão é mais ou menos o seguinte:

1 ? Países desenvolvidos defendendo loucamente uma redução de emissões de GEE de 25 a 40% pra eles e de 15 a 30% abaixo do business-as-usual para os países em desenvolvimento. Aqui isso ficou conhecido como IPCC box, já que saiu de um quadro do relatório 4 do IPCC elaborado por dois cientistas.

2 ? Países em desenvolvimento defendendo NAMAs (Nationally appropriate mitigation actions), a serem registrados num cadastro internacional para poderem ser medidos, reportados e verificados (MRV). Tem ganhado influência uma proposta da Coréia do Sul que divide esses NAMAs em três categorias: uma voluntária, na qual o MRV seria mais light com base em critérios internacionais; outra na qual haveria o apoio financeiro dos países desenvolvidos, com MRV acordado entre ambas as partes desenvolvida e em desenvolvimento; e uma terceira categoria de ações que poderiam gerar créditos de carbono e entrar no mercado, aí o MRV seguiria os critérios do mecanismo de desenvolvimento limpo.

(Parêntesis - Às vezes penso se estou conseguindo me fazer entender ou se estou falando grego. É uma discussão complicada, dura e específica, temperada por uma cacetada de siglas que confundem ainda mais.)

3 - Minha visão sobre isso: os NAMAs são uma fórmula bem interessante e sofisticada, pois ficam entre a famosa ?soft law? e a ?hard law? ? traduzindo, do que é voluntário para o que é obrigação. No meio do caminho, assim como a pedra do Drummond, estão os NAMAs. Há uma grande abertura nisso pois cada país registraria o que quisesse, e na categoria que quisesse. O famoso REDD, por exemplo, poderia tanto ser uma ação a ser executada por um país em desenvolvimento com apoio de um desenvolvido ou uma ação a gerar créditos para mercado, o país é que escolhe. Acho que é uma solução bacana por ora, tendo em mente os números do IPCC de 15 a 30% de redução abaixo do BAU.

4 - O problema é a famosa história da discussão internacional : o mundo desenvolvido querendo dividir a bola com o mundo em desenvolvimento, que é bom de futebol e devolve a bola pra eles. E nisso ninguém marca o gol, que seria o ?long-term goal? onde queremos chegar….

5 - Como diria Manu Chao, “enquanto o mundo continua parolando, a água e os termômetros vão subindo”.

Fernanda Carvalho - TNC

Paralelo ? Tecnologia e Meio Ambiente

abril 1st, 2009

Artistas, Designers e Pesquisadores encerraram, ontem (31), a série de encontros promovidos pelos grupos British Council, Mondriaan Foundation e o Arts and Humanities Research Council. Sob o tema ?Paralelo ? Tecnologia e Meio Ambiente?, o evento promoveu uma ampla discussão entre profissionais da arte e mídia do Brasil, Holanda e Reino Unido.

 

O Paralelo ? Tecnologia e Meio Ambiente levantou possibilidades de como articular arte e comunicação com ciência e respeito ecológico. O objetivo foi estabelecer, através das discussões nos simpósios, referências histórico-culturais a partir de reflexões sobre projetos que envolvam tecnologia e meio ambiente. ?Foi uma oportunidade interessante para perceber como a tecnologia pode ser democrática e andar junto com o meio ambiente sem oferecer problemas?, analisa a universitária Naira Albuquerque, 28.

 

O encontro internacional foi realizado no Museu da Imagem e do Som (MIS) entre os dias 29 e 31 de março. Durante esses dias, além de simpósios, o público pode conferir oficinas e mostra de vídeos.

 

Hoje ? A programação do Paralelo termina nesta quarta-feira (1°). Depois dos encontros ainda é possível conferir, a partir das 13h15, no Centro Cultural São Paulo, a Performance Nomadicgrazing, com Esther Polak.

Bonn I - EUA de volta à cena

março 31st, 2009

Aqui em Bonn I, como está sendo chamado o primeiro encontro dos AWG LCA e KP (grupos de trabalho ad hoc sobre visão compartilhada de longo prazo: o acordo global pós 2012, e Protocolo de Kyoto:normas para implementação do dito-cujo), a grande novidade certamente é a volta dos EUA à cena. No plenário de abertura, no domingo, houve uma longa rodada de aplausos quando Todd Stern, o assessor especial do Obama para questões climáticas, foi anunciado. A fala dele foi animadora. Mencionou o grande desafio da mudança climática como uma oportunidade de transformação para uma economia de baixo carbono; disse que o caminho à frente deve ser guiado pela ciência e pelo pragmatismo, reconheceu a responsabilidade americana mas também ressaltou a das “major economies”, e disse que não adianta fazer um acordo internacional que não seja apoiado pelas pessoas que ele representa, referindo-se ao “mico” do Protocolo de Kyoto. Palmas, palmas e mais palmas.

Palavras de negociadores experientes: “lindo discurso, mas queremos compromissos de ação doméstica”. Outra que gostei: “vamos guardar nossos coelhinhos na cartola até ver qual o tamanho do coelho que vai sair da cartola do Tio Sam”. A ver e esperar, não de espera - de esperança, palavra de ordem quando o assunto é clima.

Fernanda Carvalho - TNC

A Hora do Planeta

março 30th, 2009

O Observatório do Clima esteve atento a mais um passo importante que foi dado no último sábado (28) para a conscientização a respeito das mudanças climáticas. O evento simbólico a Hora do Planeta superou as expectativas e fez milhares de pessoas ao redor do mundo apagarem, durante uma hora, as luzes de suas casas. São Paulo foi uma das 3.900 cidades que participaram do movimento promovido pela WWF, parceira do OC.

Segundo informações da WWF, no Brasil, 107 cidades aderiram à Hora do Planeta, dentre elas 13 capitais: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Manaus, Rio Branco, Belém, Belo Horizonte, Vitória, Campo Grande e Fortaleza. Mais de 1.600 empresas e organizações e 52.500 pessoas se cadastraram para fazerem parte do voto brasileiro. Além do Brasil, participaram outros 87 países. Juntos, os cidadãos do planeta demonstraram a sua preocupação com o aquecimento global e, sobretudo, com a preservação da vida na terra.

Confira os Vídeos:

Brasília

Curitiba

Rio Branco (AC)

Rio de Janeiro

Todos unidos a favor do Planeta

março 25th, 2009

Governos, empresas e cidadãos unem-se no próximo dia 28 de março para A Hora do Planeta, iniciativa promovida pelo WWF-Brasil, integrante do Observatório do Clima. O ato simbólico, que se repete em diversas cidades do mundo, convida as pessoas a apagarem as luzes demonstrando a sua preocupação com o aquecimento global e as mudanças climáticas.

No Brasil, Belém, Curitiba, Florianópolis, Rio Branco, Rio de Janeiro e São Paulo, entre outras cidades já aderiram e vão apagar alguns de seus monumentos públicos. A capital paulista deixará às escuras a Ponte Estaiada, o Monumento às Bandeiras, o Viaduto do Chá, o Estádio do Pacaembu, o Teatro Municipal, o Mercado Municipal, o Obelisco e o Parque do Ibirapuera.

Em Curitiba, a Fundação O Boticário, que também faz parte do Observatório do Clima, é apoiadora da Hora do Planeta 2009 e responsável pela mobilização da sociedade. O Festival de Curitiba - o maior evento de teatro do País - aderiu à causa e apagará as luzes de oito espetáculos, simbolicamente, durante um minuto. A Sol Meliá Hotels & Resorts também aderiu ao movimento. A empresa garantiu que participará apagando as luzes da fachada e diminuindo a iluminação em seus 15 empreendimentos, localizados nas cidades de São Paulo, Angra dos Reis, Brasília, Campinas e Guarulhos.

PARTICIPE ? Qualquer pessoa pode unir-se à causa e mostrar que está atenta ao problema do aquecimento global. Para participar basta desligar durante uma hora as luzes da sua casa. Lembrando que a Hora do Planeta é dia 28 de março a partir das 20h30.

Saiba mais no Site: www.horadoplaneta.org.br

 

 

 

Outras responsabilidades diferenciadas

março 23rd, 2009

Vale a pena ler o artigo escrito pela Daniela Chiaretti. É o artigo mais atual e real sobre a “rixa” da “graduação” que ganhou força esse ano nas negociações de clima. A idéia da “graduação” de responsabilidades foi reforçada por propostas do Japão e da Austrália, que conta com o apoio de bastidores da UE. O objetivo dessa proposta é diferenciar as responsabilidades de países em desenvolvimento, por exemplo, dar mais responsabilidade de redução de emissões ao Brasil, China e Índia do que Maldivas, Moçambique…

Bloco do Brasil corre risco na negociação de clima
Valor Econômico ? 09/03/2009

Guarany Osório, Greenpeace

Notícias de fora

março 20th, 2009

Esta semana, duas notícias de sites estrangeiros chamaram atenção dos integrantes do Observatório do Clima. Andé Ferretti encaminhou o artigo intitulado (em tradução livre) “Crianças e seu legado carbônico: um caminho para se tornar um eco-herói?” http://blog.nature.org/2009/03/children-and-carbon-legacy-population-eco-hero-carbon-emissions/

Sobre o texto, André lança uma pergunta: “Será que algum dia as pessoas vão chegar ao ponto de vender créditos de carbono por não ter filhos, ou de comprar créditos para tê-los?” Abaixo, foto ilustrativa de estrada dinamarquesa publicada no site Cool Green Science.

Já Rachel Bidermann sugere o site do governo da Dinamarca, para quem quiser acompanhar os preparativos para a COP 15: http://en.cop15.dk/