Dia de campo leva equipe do Bota na Mesa para uma manhã de trabalho em propriedades agrícolas familiares

A realidade da agricultura familiar por meio da experiência: na reta final da jornada de formação do Bota na Mesa, a equipe realizou o Dia de Campo, trabalhando em duas propriedades agrícolas familiares, cooperadas das organizações participantes do projeto 06/09/2017
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A experiência não é o que se passa, o que acontece, o que toca. Mas sim o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

A frase do professor da Universidade de Barcelona, Jorge Larrosa, traduz a inspiração que levou a equipe do Bota na Mesa para um Dia de Campo.

“Vocês vieram mesmo trabalhar?”. Tivemos que convencer Maria e Waldemir, membros da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Ibiúna (COAFI), que sim. Logo de início percebemos que aquela experiência, de receber alguém “de fora” para um dia de trabalho, que não fosse apenas um passeio pela propriedade, era algo novo também para as famílias. 

Plantar 1722 mudas de alface, em 6 canteiros diferentes. 

Classificar e embalar quase 600 goiabas. 

Essas foram as atividades que experienciamos em Ibiúna e em Valinhos, com membros de duas cooperativas participantes do Bota na Mesa. Fomos com a expectativa de entender como se dão os desafios da inclusão da agricultura familiar por meio de outras lentes. Voltamos entendendo que a geração de conhecimento por meio da experiência revela uma realidade mais complexa. 

Em pouco mais de 2 horas de trabalho e de muita conversa, nos deparamos com a fragilidade de um processo feito em pequena escala e com a incerteza dos rendimentos, em função do clima e do preço de venda. Foi também em campo que ouvimos depoimentos sobre a conturbada convivência do urbano e do rural no entorno de uma cidade. Se o valor de 1 hectare valorizou-se subitamente, a partir da construção de uma rodovia, quais são chances das famílias em situação de vulnerabilidade, a não ser vender a terra, usufruir dos ganhos e deixar a tradição agrícola da família? 

“Quem fica é por vocação e teimosia”, diz o agricultor familiar que cultiva goiaba no Sítio Kussakariba, uma propriedade agrícola de 1951, na região de Valinhos. 

O Sítio Kussakariba é referência em turismo rural no entorno de São Paulo. A partir de um convite da prefeitura para receber turistas durante a tradicional “Festa do Figo”, a família encontrou uma importante fonte de renda, que chega a representar 30% dos ganhos da propriedade. “Receberíamos 20 pessoas para um almoço, mas só no dia percebemos que não tínhamos pratos nem talheres”. Se no começo, em 2002, foi necessário colocar mesas na varanda da casa para acomodar 15 pessoas, hoje o Sítio tem infraestrutura para receber grupos de até 90 pessoas, e administra uma movimentada agenda com excursões de crianças, jovens e  idosos. 

A maturidade do sítio, que tem 3 hectares, veio pela tradição da família no trabalho agrícola. Durante uma manhã em que classificamos goiabas que seriam enviadas para um cliente atacadista, não deixamos de notar a presença de três gerações da família em um mesmo galpão.

A existência de áreas cultiváveis ao redor das cidades também dinamiza a economia de municípios como Ibiuna, onde 65% da população é residente no meio rural. E o conhecimento tácito desses agricultores, empenhados na atividade agrícola, precisa ser valorizado. 

No contato direto com a terra, quase uma meditação para quem vive em grandes centros urbanos, o que emerge é uma lógica diferente de relação com os alimentos e com as pessoas que os produzem. A empatia e a sensação de “pertencer” contrastam com a distância de outrora. Aliar a razão formal, de conhecimentos e conteúdos, a uma outra razão, que é sensível, elevou não apenas nosso entendimento sobre o desafio em questão, como também as nossas relações com as famílias. Sem dúvida, um outro patamar de qualidade. 

“Não é fácil incluir o agricultor familiar”, já anunciava um dos cooperados durante uma oficina na cooperativa agrícola Sul Brasil. Encorajada e inspirada para a continuidade do trabalho do Bota na Mesa, a equipe do projeto partirá para um outro momento de trabalho, buscando dar escala e amplitude ao que se viu em campo. E também, trazendo outros atores para dias de campo como esse. São essas e outras iniciativas que criam pontes entre os envolvidos, e contribuem para que as relações na cadeia de alimentos de grandes centros urbanos sejam mais justas e transparentes.