Diálogo sobre segurança alimentar e nutricional no contexto da sustentabilidade

Em evento na Fundação Getulio Vargas, o GVces e a CODEAGRO-SP convidaram representantes do poder público, empresas e sociedade civil para discutir segurança alimentar e nutricional no contexto da sustentabilidade 06/07/2017
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(Divulgação GVces)

A segurança alimentar e nutricional é um tema multidisciplinar que incorpora elementos para além da produção de alimentos e de uma dieta segura para a saúde humana. Ela envolve também o acesso físico e econômico da população a esses alimentos e a disseminação de informações qualificadas que apoiem, de maneira construtiva, a decisão dos consumidores.

Atentos a esses desafios e buscando avançar no desenho de soluções, o GVces e a CODEAGRO-SP convidaram representantes dos setores público, empresarial e da sociedade civil para o “Diálogo sobre segurança alimentar e nutricional no contexto da sustentabilidade”, que ocorreu no dia 27 de junho de 2017, na FGV EAESP.

Em um ambiente de ampla escuta e participação, os convidados conversaram sobre os gargalos da cadeia de alimentos que desafiam a promoção da segurança alimentar e nutricional.

A mesa de apresentações foi composta por Roberto Furuya, representando a realidade dos pequenos e médios produtores de frutas, verduras e legumes;  Anita Gutierrez, trazendo as complexidades da cadeia de hortifrúti vividas em seus mais de 20 anos na área de qualidade da CEAGESP;  Rogerio Levorin, da Associação Paulista de Supermercados (APAS), e Victor Bicca Neto, relatando esforços de co-responsabilização da indústria de alimentos na agenda e as iniciativas recentes implementadas pela Coca-Cola Company.

Mais diálogo na cadeia

É pressuposto que as agendas da sustentabilidade e da segurança alimentar e nutricional necessitam de uma ampla articulação de atores para os avanços necessários.  “Estamos aqui para construir um diálogo. Esta é uma agenda que só avançará se rompermos o distanciamento entre as empresas, o setor público e a sociedade civil ”, analisa José Valverde, Coordenador da CODEAGRO-SP. 

O entendimento dos presentes é o de que não faltam ações e planos sendo empreendidos, a exemplo dos Planos de segurança alimentar de Estados e Municípios, os projetos de responsabilidade social de grandes empresas, e a atuação de uma diversidade de organizações da sociedade civil em prol da segurança alimentar e nutricional. É preciso avançar, entretanto, na devida costura – entre os envolvidos e impactados – a fim de que transformações ocorram e soluções sejam implementadas.

Mapa dos desafios

A partir dos pontos levantados pela mesa de apresentações, foi estabelecido um diálogo amplo entre os presentes, que compartilharam com o grupo diferentes perspectivas a respeito da segurança alimentar e nutricional. Não há dúvidas de que o território rural é o primeiro ponto de acupuntura. Além de ser o lugar onde são produzidos os alimentos com alto valor nutricional (frutas, verduras e legumes) é também no campo onde encontram-se famílias em situação de insegurança alimentar. Segundo José Valverde, esse tem sido um ponto de atenção do governo.

Outras dificuldades vividas no campo pelas famílias estão relacionadas às práticas de comercialização exercidas ao longo da cadeia de alimentos. Roberto Furuya, da Cooperativa Agrícola Sul Brasil, acredita que os baixos retornos financeiros podem tornar a agricultura familiar inviável.  “Não basta só soltar crédito a juros subsidiados para manter o agricultor no campo, isso ajuda a produção, mas não a receita. Não recebemos um preço justo pelo produto”, complementa Roberto, após levantar o questionamento sobre quais atores deveriam compartilhar os riscos da atividade agrícola com os pequenos produtores.

Paulo Branco, vice-coordenador do GVces, durante diálogo sobre segurança alimentar e nutricional no contexto da sustentabilidade (Divulgação GVces)

A alta pereciblidade de produtos como frutas, verduras e legumes adiciona um desafio ainda maior aos atores da cadeia, que é dar conta de uma complexidade logística em tempo recorde, sem que o produto chegue danificado para as gôndolas dos mercados e feiras. Sobre o setor de hortifrútis, Anita Gutierrez analisa a necessidade de o Brasil se inspirar em sistemas de governança já em vigor em países como os Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia.  Segundo Anita, nesses países existem grupos de produção e gestão para cada produto, o que descentraliza as ações do setor público e dá mais autonomia e representatividade aos produtores. “Eu acho ótimo criar uma política dessa, que dá a quem produz o poder sobre a cadeia”, analisa.

Foram também debatidas as capacidades de contribuição – e as responsabilidades – de quem está no elo mais próximo aos consumidores: o setor varejista e a indústria de alimentos. Se, de um lado, há um acordo de que é preciso repensar a nutrição, para que ela seja menos impositiva e restritiva, a fim de se garantir o direito à escolha, de outro lado, é papel das indústrias e empresas serem mais propositivas na educação de seus consumidores.

Victor Bicca Neto, diretor corporativo da Coca-Cola Company, ressalta os desafios vividos pela empresa e compartilha algumas ações implementadas que ilustram um compromisso real com a agenda da segurança alimentar e nutricional. “Recentemente, realizamos um acordo com outras duas empresas do setor para não vender refrigerantes nas cantinas escolares”.

"O GVces quer contribuir para uma mudança sistêmica na cadeia de alimentos, engajando diversos atores para a construção coletiva de soluções", ressalta Paulo Branco, vice-coordenador do Centro, no encerramento do encontro. Esta agenda está inserida em um compromisso global no âmbito dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e evoca a necessidade de muito diálogo e clareza nos papéis e responsabilidades dos atores envolvidos.