Economia verde e o sistema financeiro nacional: seminário destaca resultados de estudo do GVces para Febraban

Evento contou com a participação de Achim Steiner, diretor do PNUMA, e dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Meio Ambiente, Izabella Teixeira 25/09/2015
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Philippe Put

Por Bruno Toledo (GVces)

O setor financeiro é fundamental para a construção de uma economia verde, e os primeiros resultados positivos desse engajamento começam a aparecer. Esta é a conclusão geral do Seminário Internacional “Sistema Financeiro, Economia Verde e Mudanças Climáticas”, realizado no último dia 21 pela Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), com apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces).

Durante o evento, foi apresentada uma prévia dos resultados de um novo estudo conduzido pelo GVces no contexto do projeto Inquiry, do PNUMA, que tem como objetivo identificar fatores, políticas públicas e inovações capazes de acelerar e ampliar a destinação de recursos financeiros para iniciativas que propiciem uma transição mais rápida para uma economia verde e sustentável. No Brasil, esta pesquisa vem sendo conduzida pelo GVces junto à FEBRABAN. Este estudo, uma continuidade da publicação O Sistema Financeiro Nacional e a Economia Verde: Alinhamento ao Desenvolvimento Sustentável, lançada em 2014, será publicado no final de outubro.

Murilo Portugal, presidente da FEBRABAN, durante o seminário internacional

A proposta central dessa pesquisa é identificar e mensurar os recursos de financiamentos intermediados pelo setor financeiro brasileiro para a economia verde, com foco particular em dois setores importantes da economia nacional – energia renovável e agropecuária.

“O setor bancário brasileiro nunca foi indiferente aos desafios trazidos pelas mudanças climáticas e pelo imperativo de promover a economia verde”, argumentou Murilo Portugal, presidente da FEBRABAN. “As iniciativas voluntárias do setor remontam a 1995, com a assinatura de um protocolo verde pelos bancos públicos. A partir daí, muitas outras iniciativas foram incorporadas”.

De acordo com esse levantamento, os saldos dos financiamentos a setores e atividades da economia verde (como energias renováveis, pesca, agricultura e construção sustentáveis e tratamento de lixo, entre outros) representaram 8,8% (R$ 123,7 bilhões) e 9,6% (R$ 153,4 bilhões) em 2013 e 2014, respectivamente, do total dos saldos das carteiras de financiamento para empresas e pessoas jurídicas dos dez maiores bancos do mercado brasileiro (que concentram 85% dos empréstimos totais).

Outro foco da pesquisa foi mensurar a exposição dos bancos a setores que tem maior potencial de risco ao meio ambiente, como frigoríficos, infraestrutura, carvão, petróleo, e outros. Em 2014, os bancos emprestaram R$ 533 bilhões, 33,2% do total de crédito corporativo; no ano anterior, esse valor era de R$ 471,2 bilhões (33,5% do total). Para esses setores, são exigidos o licenciamento ambiental, análise de impactos sociais e ambientais, respostas a questionários ambientais, checagem da existência de demandas administrativas ou judiciais, auditoria interna ou externa e planos de ação corretiva quando necessário. 

“Com esta metodologia, o setor financeiro está criando a possibilidade de medir, controlar, avaliar e gerenciar a segmentação da carteira por setores de atividade, análise de potencial dos mercados e alinhamentos à estratégia de negócios”, explica Paula Peirão, pesquisadora do GVces. “Ela também permite a comparabilidade dos volumes de recursos intermediados pelo setor bancário para a economia verde e sua evolução vis-à-vis o desempenho individual das carteiras de empréstimos e financiamentos dos bancos. Esse levantamento também permite o desenvolvimento de estratégias de mitigação de risco e a identificação de novas oportunidades de negócios para as instituições financeiras”.

Achim Steiner, diretor-executivo do PNUMA, destacou importância do setor financeiro na construção de uma economia de baixo carbono durante o seminário

Para Achim Steiner, diretor-executivo do PNUMA, o setor financeiro é estratégico para a agenda verde em todo o mundo. “O sistema financeiro é central para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável, incluindo a nossa capacidade de responder a desafios como a erradicação da pobreza e a mudança climática. O Brasil é um dos líderes na introdução de inovações políticas que melhor alinham finanças com sustentabilidade”, apontou Steiner na abertura do seminário. “Esta iniciativa está crescendo em todo o mundo e, agora, temos a oportunidade de aprofundar a cooperação internacional para construir um sistema financeiro sustentável”.

No encerramento do seminário, os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Izabella Teixeira (Meio Ambiente) apresentaram um panorama sobre as negociações internacionais em clima, os futuros compromissos do país dentro do novo acordo climático que será fechado em Paris no final deste ano, além das oportunidades que a economia verde abre para o desenvolvimento sustentável do Brasil nas próximas décadas.

Para Joaquim Levy, o engajamento dos setores financeiro e produtivo é importante para criar condições favoráveis a uma agenda verde no Brasil. “A ampla adoção de práticas socioeconomicamente sustentáveis pode ser importante para o país no longo prazo, com revisão de práticas operacionais e administrativas. Isso põe a economia verde no centro da discussão sobre produtividade”, disse Levy. O ministro da Fazenda também refletiu sobre a emergência de novas métricas de desenvolvimento que considerem a depleção dos recursos naturais e os serviços prestados pelos ecossistemas, e como as empresas brasileiras estão discutindo isso e começando a atuar a partir disso. Dentre as iniciativas destacadas pelo ministro, estão o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE BM&FBOVESPA), que conta com apoio técnico e metodológico do GVces.

Painel de encerramento do seminário, com os ministros Izabella Teixeira (Meio Ambiente) e Joaquim Levy (Fazenda), além de Achim Steiner (PNUMA)

Já a ministra Izabella Teixeira refletiu sobre como os resultados da Conferência de Paris (COP21) exigirão mudanças profundas dos países no que diz respeito a seus projetos de desenvolvimento. “Paris será uma ruptura, ela quer convencer a todos de que é preciso mudar”, aponta a ministra. “Os resultados de Paris exigirão da área ambiental uma nova competência decisória para o processo de desenvolvimento”. Na área financeira, a COP 21 pode ser importante para abrir novos canais e fluxos de financiamento para o desenvolvimento sustentável do Brasil. “Um dos resultados de Paris pode ser uma nova plataforma de recursos financeiros. Como isso vai funcionar, é um ponto de interrogação”, apontou Izabella Teixeira. “Estamos buscando um trilho, para se ter clareza sobre a redução de emissões do Brasil e atrair investimentos”.

Fotos: Divulgação FEBRABAN