Fórum Anual explora temas da fronteira da sustentabilidade

As Iniciativas Empresariais do GVces se reuniram no 4º Fórum Anual para debater os desafios e as perspectivas da indústria 4.0 e da formação de gestores para uma nova economia 05/12/2016
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Fórum reuniu as cinco Iniciativas Empresariais do GVces para tratar de temas da fronteira da sustentabilidade
Local FGV-SP, São Paulo/SP
Data: 17 de novembro de 2016(SP) Projetos: Ciclo de Vida Aplicado (CiViA), Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local),
Empresas pelo Clima (EPC), Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV),
Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) Participantes: Público em geral Apresentação: Mariana Nicolletti (GVces)
Texto: Bruno Toledo (GVces)
Fotos: Roberta Boccalini (GVces)

Estamos vivendo uma mudança de paradigma na política e na economia. Os modelos e as certezas vigentes até pouco tempo parecem não dar mais conta das necessidades e dos anseios das pessoas ao redor do mundo. As transformações acontecem de maneira cada vez mais acelerada, encurtando os tempos que antes precisávamos para pensar em soluções para os problemas presentes. Esse cenário abre caminho para novos pensamentos, valores e práticas. 

Poucos agentes sentem o peso dessa transformação estrutural na sociedade contemporânea como a empresa. O modelo consolidado de organização empresarial, herdado dos avanços gerenciais e tecnológicos que aconteceram ao longo dos séculos XIX e XX, é uma base cada vez mais frágil para a atuação desses agentes na economia. Se antes a empresa deveria se orientar somente pelo lucro, hoje as pressões sociais e regulatórias forçam os gestores empresariais a pensar no impacto do seu negócio sobre o meio ambiente e as comunidades que vivem no seu entorno e ao longo de sua cadeia de valor. Em muitos casos, o lucro depende diretamente da atenção da empresa com questões que antigamente não faziam parte do receituário da gestão empresarial.

Nesse mundo em transformação, a capacidade de uma empresa em adaptar seus valores, práticas e negócios a uma nova realidade é elemento crucial para determinar o seu sucesso no mercado. As empresas promissoras são aquelas capazes de compreender qual será a próxima fronteira da gestão empresarial e como lidar com ela, produzindo conhecimento e aprendizado. 

Ao mesmo tempo, as mudanças não acontecem apenas por fatores externos à empresa: elas acontecem também por conta das pessoas que fazem parte dela como profissionais, com habilidades e repertórios fundamentais para o sucesso da empresa. Não é possível olhar para as transformações atuais sem olhar para as pessoas. 

A sustentabilidade emerge nesse contexto não apenas como um valor, mas como um caminho para que o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada viabilizem a transformação para uma nova economia. Por isso, as Iniciativas Empresariais do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces) buscam destacar esse caminho, reunindo empresas de diferentes setores e portes em torno da promoção de uma agenda de sustentabilidade na gestão corporativa no Brasil a partir da coconstrução de conhecimento, metodologias e ferramentas para lidar com os desafios dessa nova economia.

No dia 17 de novembro, as cinco Iniciativas - Ciclo de Vida Aplicado (CiViA), Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local), Empresas pelo Clima (EPC), e Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV) - promoveram seu 4º Fórum Anual no Auditório Itaú da FGV-EAESP, em São Paulo, para destacar o trabalho desenvolvido conjuntamente no decorrer do ano de 2016 e para refletir sobre dois temas importantes da sustentabilidade no Brasil e no mundo nos próximos anos: a chamada "indústria 4.0" e a formação de gestores para a sustentabilidade.

As Iniciativas Empresariais e a agenda integrada de trabalho são um espaço privilegiado para tratar de sustentabilidade no âmbito empresarial, reunindo 40 empresas de setores diversos e atuação em diferentes regiões do Brasil. Elas compõem um mosaico de temas unidos a partir de uma abordagem de trabalho comum, munindo os gestores com conhecimento, ferramentas e métodos para lidar com a fronteira da sustentabilidade.

Mariana Nicolletti, gestora das Iniciativas Empresariais do GVces

Da esquerda para a direita: Regina Magalhães (Plural Consultoria e FGV-EAESP), Aron Belinky (GVces), e Nelson Pereira dos Reis (FIESP)

A emergência da indústria 4.0

O avanço da tecnologia no último século tem sido notável. Poucos momentos da História da humanidade testemunharam tamanha transformação nos modos de vida e produção das comunidades humanas em um intervalo de tempo tão curto. 

A disruptividade observada em muitos setores econômicos nos últimos anos tem motivado uma reflexão em torno de uma nova Revolução Industrial em marcha neste começo de século. Depois da produção mecanizada pela máquina à vapor no final do século XVIII, do advento da eletricidade na segunda metade do século XIX, e da chegada da eletrônica em meados dos anos 1950, o processo produtivo caminha para a automação, graças a sistemas ciberfísicos. Esses sistemas combinam a operação das máquinas com processos digitais e são capazes de tomar decisões descentralizadas e de cooperar entre eles e com os seres humanos. 

A automação surge em um contexto no qual se discute a possibilidade de uma economia cada vez mais desmaterializada, com processos cíclicos que unem as empresas em torno de um "ecossistema" no qual tudo se aproveita e nada se desperdiça. Dessa maneira, o advento da automação não se limita apenas ao sistema fabril, mas abrange todo o sistema produtivo, com efeitos sobre toda a economia.

Isso deixa claro a importância das empresas hoje investirem esforços e recursos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), com vistas à produção de inovação tecnológica. Cada vez mais empresas desenvolvem estudos voltados ao desenvolvimento tecnológico para os seus negócios, um movimento que não se limita mais às nações desenvolvidas, como Estados Unidos, Japão e europeus, mas também abrange organizações em países emergentes como China, Coreia do Sul e Índia.

É nesse ponto que reside um potencial parcamente aproveitado pelo Brasil: a despeito de ser uma das nações mais ricas do mundo em termos de biodiversidade, o que garantiria uma base crucial para pesquisa e desenvolvimento tecnológico voltados para biotecnologia, o poder público e a iniciativa privada brasileira ainda "batem cabeça" quando se discute uma forma de aproveitar esse potencial. Os incentivos via políticas públicas para o desenvolvimento tecnológico são baixos no Brasil, o que intimida as empresas brasileiras na hora de investir em P&D. Isso se reflete no baixo número de patentes registradas por essas organizações dentro e fora do Brasil.

Para o Brasil, a competitividade de sua indústria no futuro passa pelo aproveitamento mais adequado do potencial que advém de sua riqueza natural. Investir em desenvolvimento tecnológico a partir da sua diversidade biológica não beneficiaria apenas as empresas brasileiras, mas, com uma distribuição igualitária dos benefícios decorrentes disso, também geraria riqueza e renda para as comunidades locais que preservam essa riqueza natural e que guardam consigo conhecimento sobre ela.

No que diz respeito ao processo fabril em si, destaca-se o grande potencial que a automação pode ter sobre a produtividade total da economia, ampliando a geração de riqueza em níveis inéditos em muitos setores. No entanto, esse aumento de produtividade pode vir às custas do fechamento de postos de trabalho e da redução dos salários dos colaboradores, impactando assim as condições de vida de boa parte da população economicamente ativa em todo o mundo.

Um desafio para essa nova indústria que emerge é exatamente como adentrar nesse caminho da automação sem que isso prejudique as pessoas que dependem dessa atividade econômica para viver - em muitos casos, para sobreviver. É nesse ponto que emerge a segunda questão destacada no Fórum das Iniciativas Empresariais do GVces: a formação de gestores para a nova economia.

A indústria 4.0 não diz respeito simplesmente a mudanças na produção fabril em si, mas principalmente na lógica por trás do sistema produtivo como um todo. Essa nova indústria emerge de maneira muito rápida, o que impõe o desafio de como conviver - e, em muitos casos, competir - com elementos das antigas indústrias.

Aron Belinky, coordenador do programa Desempenho e Transparência do GVces

Fernanda Carreira (GVces) durante debate sobre formação no 4º Fórum Anual das Iniciativas Empresariais

Formação de gestores para o século XXI

A indústria 4.0 traz consigo uma reflexão econômica sobre a complexidade que marca o momento atual da humanidade. As soluções objetivas que simplificam a realidade não dão mais conta dos desafios que enfrentamos hoje em dia. Para uma empresa, não basta trabalhar sustentabilidade apenas dentro de suas fronteiras: se ela se quer sustentável, ela precisa agir além dos seus limites, precisa olhar para todo o ecossistema de empresas que vivem ao longo da sua cadeia de valor. 

Esse novo cenário exige das lideranças empresariais e dos gestores um novo comportamento e uma nova reflexão sobre a missão e o propósito de sua organização. Os gestores de hoje vivem as incertezas dessa nova realidade no dia-a-dia, respondendo da maneira como podem aos desafios que surgem no meio do caminho. Para os gestores de amanhã, isso pode não ser mais possível: por isso, é importante que a nova geração de administradores e líderes empresariais chegue ao mercado preparada e capacitada para lidar com esses desafios de uma maneira mais integral e dinâmica.

Assim, a formação desponta como um campo de transformação fundamental para o sucesso das organizações empresariais na era da indústria 4.0. Isso não é de hoje: a educação acompanha a evolução dos sistemas produtivos desde os primórdios da Revolução Industrial no final do século XVIII. 

Da mesma forma que as organizações, o sistema educacional segue uma lógica de fragmentação que valoriza o conhecimento especializado sobre um determinado tema ou campo de conhecimento. Em grande parte, os avanços industriais nos séculos subsequentes estão relacionados com esse modelo mental de fragmentação, que permite aprofundar o conhecimento sobre um determinado ponto. No entanto, esse modelo ignora o tecido que conecta todas as parte do todo, simplificando a complexidade que envolve esses elementos. 

Para lidar com essa complexidade, os profissionais precisam de uma formação que passe a valorizar também um conhecimento mais integral sobre a realidade e que reconheça o tecido complexo que une seus elementos.  

O ser humano aprende pela experiência, pelas relações, pelo corpo, pela emoção. Isso nunca se perdeu, mas o processo educacional vigente ainda relativiza tudo isso, priorizando apenas a razão. A complexidade na era planetária desafia essa lógica.

Ana Carolina Aguiar, consultora de formação do GVces

As Iniciativas Empresariais e a agenda integrada

Os debates realizados no Fórum Anual deixaram claro que não tem como se falar da "empresa do amanhã" sem que a sustentabilidade já esteja inserida. Para viabilizar essa nova organização, sustentabilidade não pode mais ser um tema paralelo e marginal à estratégia fundamental da empresa. 

Isso exige que a empresa assuma um papel de protagonista da transformação e que ela incorpore isso dentro de seu propósito. Aos poucos, as empresas brasileiras começam a entrar nesse movimento mais amplo, e um objetivo fundamental das Iniciativas Empresariais do GVces é acelerar esse processo, apoiando essas organizações.

Em 2016, as Iniciativas Empresariais uniram esforços para endereçar um dos principais desafios ambientais brasileiros nos últimos anos: a gestão de recursos hídricos. Para o GVces, esse tema reúne as experiências e os conhecimento das cinco Iniciativas para a construção de soluções em rede, olhando para questões como a pegada hídrica, adaptação à mudança do clima, valoração de serviços ecossistêmicos relacionados a água, e aspectos de inovação na gestão e na governança desses recursos.

Para tanto, atividades integradas foram realizadas ao longo deste ano, voltadas principalmente para capacitação e para identificação de casos interessantes em gestão de recursos hídricos no poder público, na iniciativa privada e na sociedade civil. Os casos foram apresentados em oficina realizada em outubro passado e serão detalhados em publicação prevista para o começo de 2017.

No próximo ano, as Iniciativas Empresariais continuarão trabalhando no tema de gestão de recursos hídricos em questões como sistema de informação para tomada de decisão de gestores e governança no contexto das bacias hidrográficas.