Fórum debate papel do setor privado na implementação de ações de adaptação às mudanças do clima na América Latina

Iniciativa inédita do GVces em parceria com o Secretariado da UNFCCC reúne representantes de empresas, governos e sociedade civil da América Latina na FGV-SP 10/07/2013
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Por Bruno Toledo (GVces)
 

As mudanças nos padrões climáticos globais trazem incerteza sobre as condições climáticas em todos os países. Algumas de suas consequências já são visíveis: o derretimento acelerado da calota polar, a maior frequência e intensidade de chuvas e de estiagem em determinadas áreas, ou ondas persistentes de calor e de frio – tudo isso já afeta negativamente a economia global e pressiona sobretudo as comunidades carentes (enchentes, deslizamentos de terra, carestia de alimentos, etc.) e os países mais pobres.

Na América Latina, os efeitos das mudanças climáticas já são percebidos, e as empresas da região já se mobilizam na busca de caminhos para projetar os cenários climáticos decorrentes do aumento da temperatura média global e para adaptar os seus processos, serviços e produtos para o novo contexto climático. Com informações e ferramentas mais confiáveis e operações mais resistentes, estas empresas estão se preparando para manter a sua competitividade, transformando riscos em oportunidades de inovação e de negócios.

Assim, a adaptação às mudanças do clima pode ser uma oportunidade estratégica para que as empresas latino americanas deem um salto de competitividade e de inovação, com a criação de novos processos e de produtos e serviços mais resistentes e que respondam às novas demandas e necessidades que surgem a partir do novo contexto climático.

Esta foi a mensagem dada pelos participantes do Fórum Latino Americano de Adaptação às Mudanças do Clima, promovido pelo GVces em parceria com o Secretariado da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) no último dia 26 na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. Mais de 150 participantes, entre representantes de empresas, de governos, de organizações da sociedade civil e pesquisadores, puderam conhecer mais sobre os estudos, as ferramentas e as iniciativas em andamento na América Latina em adaptação às mudanças do clima.

“As empresas são atores essenciais para a implantação de uma agenda efetiva de adaptação às mudanças do clima”, defendeu Mariana Nicolletti, coordenadora da Plataforma Empresas pelo Clima (EPC). “Precisamos que estes atores tomem consciência desse papel e avancem para inserir a variável do clima em sua estratégia de negócio, utilizando metodologias e ferramentas confiáveis para identificar suas vulnerabilidades, dimensionar os impactos das mudanças climáticas e definir uma estratégia de atuação que englobe outros atores importantes, como o poder público e a sociedade civil”.

Clique nos links abaixo para ver os principais pontos abordados no Fórum e os três casos apresentados.

Adaptação e Economia: necessidades e oportunidades

Ferramentas, metodologias e apoio para empresas em adaptação

Experiências e casos empresariais de adaptação

Agenda empresarial de adaptação às mudanças do clima

 

 

Adaptação e Economia: necessidades e oportunidades

O impacto das mudanças do clima na economia global é nítido. “Essas alterações trazem impactos interdependentes sobre a biodiversidade, a agricultura, a infraestrutura, a saúde, além da disponibilidade de alimento e de água potável”, argumenta Sergio Margulis, assessor especial do Ministério do Meio Ambiente.

O novo e incerto contexto climático traz riscos diretos para os negócios e as operações das empresas em todo o mundo. “As mudanças impactam crescentemente o desempenho dos negócios e a dinâmica de funcionamento do mercado”, aponta Joanne Potter, diretora executiva do ICF International. Os investidores também começam a se preocupar com os riscos climáticos associados aos seus investimentos, e as seguradoras estão requisitando cada vez mais que as empresas tenham um gerenciamento dos seus riscos climáticos.

A dimensão dos problemas relacionados com as mudanças do clima exige que as iniciativas de adaptação às suas consequências sejam articuladas entre todos os atores, dos governos até as empresas e a sociedade em geral. Essa articulação é importante para que os custos da adaptação sejam mais viáveis, especialmente para os países em desenvolvimento. Para Margulis, é importante que a agenda da adaptação seja implantada nesses países, não apenas por serem os mais afetados pelas mudanças do clima, mas também porque as suas emissões crescem e contribuem cada vez mais para as alterações no clima. Assim, é necessária uma atuação que integre ações de mitigação e adaptação.

Mas para tanto, a agenda de adaptação não pode esperar pelas definições políticas do plano internacional. “Cada país possui a percepção daquilo que as mudanças climáticas estão causando em seu próprio território”, aponta Margulis. “A adaptação deve começar com a adoção de medidas que abordem os riscos climáticos que os países já estão enfrentando”.

E as empresas podem desempenhar um papel importante para adaptação. “O setor privado pode ser importante para auxiliar as comunidades, especialmente as mais pobres, a se adaptarem às mudanças do clima, transformando esse novo cenário climático em oportunidades de negócio e dotando as cidades de resiliência e infraestrutura necessárias para resistir a essas mudanças”, defende Joanne.

 

Ferramentas, metodologias e apoio para empresas em adaptação

Para que se definam ações de adaptação, é importante que se identifique primeiro as vulnerabilidades de determinado ator, região ou comunidade frente às mudanças do clima. Diversos instrumentos analíticos e modelos matemáticos já conseguem desenhar projeções de cenários climáticos futuros a partir das alterações que o clima global sofre atualmente, produzindo informações para embasar estratégias fundamentadas de adaptação.

“É impossível traduzir toda a natureza a partir de um modelo matemático”, pondera José Marengo, chefe de ciência do sistema terrestre do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). “Por isso o que podemos fazer são projeções a partir desse modelo de algo que ainda nos é incerto”. A partir das projeções, são definidos cenários climáticos que levam em consideração diversas variáveis relacionadas com as mudanças do clima. Os cenários climáticos produzidos pelo INPE são utilizados em toda a América Latina no estudo sobre eventos climáticos extremos, e os dados são disponibilizados abertamente para pesquisadores e demais interessados.

Além de cenários climáticos, outras ferramentas podem auxiliar os atores na tomada de decisão sobre adaptação às mudanças do clima. Um exemplo mostrado no Fórum foi o GAIN Index, desenvolvido pelo Global Adaptation Institute (GAIN) para auxiliar governos e o setor privado na compreensão dos desafios da adaptação climática e para fundamentar investimentos nessa área. “O GAIN Index mede a vulnerabilidade de um país para os riscos relacionados com o clima e a resiliência e disponibilidade de recursos necessários para adaptar-se aos desafios colocados, destacando as áreas mais preparadas para receber investimentos públicos e privados em adaptação”, explica Claudio Fabian Szlafstein, conselheiro do GAIN.

Outra ferramenta apresentada foi a ECA (Economics of Climate Adaptation), desenvolvida pela Swiss Re, uma companhia resseguradora suíça. Segundo Claudia Melo, gerente comercial da Swiss Re, a proposta do ECA é dar aos tomadores de decisão “fatos e métodos econômicos necessários para elaborar e executar estratégias de adaptação, fornecendo às seguradoras, instituições financeiras e potenciais investidores a informação necessária para permitir o financiamento da prevenção de riscos e aprimoramento de mercados de transparência de risco”.

Na América Central, uma das regiões mais vulneráveis e expostas às mudanças do clima, diversas empresas estão recebendo apoio técnico para desenvolver suas próprias estratégias em adaptação climática através de um programa regional liderado pela INCAE Business School (Costa Rica) em parceria com a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e a rede IntegraRSE. “O objetivo do nosso trabalho é melhorar a análise e a capacidade de gestão do setor privado na América Central, incorporando os riscos e oportunidades da adaptação aos planos e estratégias corporativas”, explica María José Gutierrez, da INCAE.

 

Experiências e casos empresariais de adaptação

As empresas são atores importantes para a agenda de adaptação não apenas por causa dos recursos que possuem, mas também pela rapidez com que elas podem mobilizá-los. Diversas organizações, desde pequenas e médias até corporações multinacionais, já estão lidando com os desafios da adaptação e aproveitando as oportunidades associadas.

Há cinco anos, o Secretariado da UNFCCC criou a Private Sector Initiative (PSI) no âmbito do Nairobi Work Programme (NWP) com o propósito de catalisar o envolvimento do setor privado nos esforços de adaptação às mudanças do clima, a partir de uma plataforma que reúne casos empresariais de atuação nesse tema em todo o mundo. “O propósito da PSI é incentivar a ação em adaptação por outros atores privados, provendo informações sobre o tema e reunindo experiências de empresas que já estão lidando com o tema”, explica Emerson Resende, coordenador associado da PSI/UNFCCC. Durante a preparação para o Fórum, o GVces convidou as empresas latino americanas a submeterem suas iniciativas de adaptação ao banco de casos da PSI. Foram submetidos 30 casos, sendo que 13 foram aprovados e agora fazem parte do banco de casos da PSI, e desses 13, três foram convidados a apresentar as suas experiências no Fórum.

De Bogotá, na Colômbia, foi apresentado o trabalho de recuperação de áreas hídricas como medida de adaptação empreendido pela Empresa de Acueducto y Alcantarillado de Bogotá (EEAB) junto com a Secretaria Distrital de Ambiente da capital colombiana. O projeto propõe a recuperação integral de rios e córregos e o manejo de áreas alagadas e protegidas, visando não apenas a restauração ecológica, mas também o melhoramento paisagístico e a apropriação social e cultural dessas áreas, associado com o remanejamento de famílias que viviam em áreas de risco. “Do ponto de vista da adaptação, este trabalho nos permite ter um maior conhecimento e consciência social sobre os impactos das mudanças climáticas, diminui os riscos de perdas humanas decorrentes de enchentes ou deslizamentos, aumentar a conectividade das pessoas com o espaço e melhora a qualidade do habitar para espécies nativas e migratórias”, explica Sandra Sguerra, da Secretaria Distrital de Ambiente de Bogotá. “Já pela perspectiva da mitigação, temos uma captura maior de CO2 a partir da restauração dos ecossistemas”.

Do Brasil, o projeto Climagrid da EDP também foi apresentado durante o Fórum. Aproveitando o conceito de redes inteligentes, o Climagrid avalia os impactos climáticos sobre a energia elétrica por meio de previsões e análises de dados históricos sobre uma área de concessão no Estado de São Paulo. “O Brasil é o campeão mundial em incidência de raios, e essa área de concessão é uma das mais afetadas por este fenômeno”, aponta Vitor Gardiman, gestor executivo de Desenvolvimento Tecnológico da Distribuição da EDP. Esta ferramenta permite à empresa fazer projeções climáticas dessa área de concessão, permitindo que a EDP se prepare para possíveis inconvenientes causados por tempestades, como raios e enchentes. “Nossa empresa tentou se antecipar aos efeitos causados pelas mudanças climáticas no sentido de minimizá-los, levando a um melhor aproveitamento da energia elétrica”.

Finalmente, direto do Peru, a Cafédirect apresentou o caso da Cepicafe, uma cooperativa de pequenos agricultores da região alta da Sierra Puira, que sofria com problemas decorrentes das mudanças do clima e do desmatamento da mata nativa andina, como chuvas e deslizamentos de terra, que acabavam afetando os cultivos de café, cacau e de frutas. A partir do projeto AdapCC, iniciativa da Cafédirect e da GIZ, a Cepicafe começou a desenvolver estratégias para tornar-se mais resiliente. “Mais de 30 comunidades foram beneficiadas, a partir de pagamento por reflorestamento, manutenção florestal e venda de madeira, além de termos melhorias nas práticas de cultivo, na qualidade da sombra e na variedade resistente de café”, explica Santiago Paz Lopes, da Cepicafe.

 

Agenda empresarial de adaptação às mudanças do clima

Esses elementos trazidos ao longo do Fórum são ingredientes importantes para a construção de uma agenda empresarial de adaptação. No final do evento, Barbara Oliveira, diretora executiva da Ecosynergy, propôs um rascunho do caminho que as empresas podem seguir para desenvolverem suas agenda nesse tema. Os participantes foram convidados a registrar suas impressões e opiniões sobre adaptação e os caminhos para que empresas incorporem estrategicamente este assunto. A sistematização das contribuições e o caminho consolidado, com suas etapas detalhadas, estão disponíveis aqui.

A Plataforma Empresas pelo Clima (EPC) aprofundará o debate e o trabalho no tema, apoiando suas empresas membro na elaboração de planos de ação em adaptação às mudanças do clima em 2014. Estão previstas ainda novas edições do Fórum Latino Americano, consolidando-o como um espaço para o fortalecimento da articulação em torno dessa agenda, para debates e para que outras iniciativas e boas práticas ganhem o destaque devido.

Imagens: Thiago Queiroz (GVces)