Gestão de Recursos Hídricos: oficina apresenta casos selecionados

Neste ano, as Iniciativas Empresariais do GVces buscaram experiências de empresas e da sociedade civil na gestão de recursos hídricos, de forma a inspirar novas ideias e práticas para o setor no Brasil 25/10/2016
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Por Bruno Toledo (GVces)

Poucas agendas da sustentabilidade mostraram-se tão relevantes e desafiadoras para o Brasil nos últimos anos do que a dos recursos hídricos. Recentemente, a crise hídrica vivida pelo Sudeste brasileiro colocou essa questão no dia-a-dia de gestores públicos, de empresas e de cidadãos em geral, que foram desafiados a repensar a forma como captam, distribuem, armazenam e consomem esse recurso natural fundamental para a vida humana.

Com a mudança do clima, episódios como esse poderão tornar-se mais frequentes nas próximas décadas, ameaçando o abastecimento de milhões de brasileiros em diferentes partes do país e, consequentemente, afetando a economia em diferentes níveis. Nesse contexto, é importante que o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil busquem novas ideias e práticas para a gestão desses recursos hídricos, de forma a evitar o desabastecimento de água em cenários climáticos críticos.

Esse desafio não é pequeno, mas os atores começam a se mobilizar e a inovar na gestão dos recursos hídricos. Inspiradas por esse desafio e pela importância dele para o desenvolvimento sustentável, as Iniciativas Empresariais do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces) – Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local), Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), e Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) – reuniram esforços em 2016 para tratar de novas formas e medidas de gestão hídrica no contexto empresarial.

Uma das etapas de trabalho das Iniciativas Empresariais neste ano foi a seleção de casos brasileiros que representem soluções práticas a desafios e oportunidades ligados à gestão de recursos hídricos, como produtos e/ou serviços (novas tecnologias, modelos de negócio, etc.), arranjos institucionais (comitês de bacias, governança local, parcerias público-privadas, etc.), processos organizacionais (métodos e processos de gestão de recursos hídricos de maneira integrada ao planejamento estratégico e ao negócio da empresa), aplicação de estudos e/ou projetos de análise de ciclo de vida que considerem a pegada hídrica na gestão empresarial, e projetos de adaptação à mudança do clima que considerem a disponibilidade de recursos hídricos.

Realizada entre maio e junho passados, a chamada de casos reuniu 40 inscritos em todo o Brasil. A equipe do GVces selecionou dez casos para serem apresentados às empresas membros das Iniciativas Empresariais, sistematizando a apresentação dos casos a partir de um recorte temático organizado em dois eixos: empresa/negócio e governança/articulação.

Os casos foram apresentados em uma oficina realizada na sede da Fundação Bunge, que gentilmente cedeu o espaço, em 06 de outubro, em São Paulo. Confira abaixo um panorama das dez experiências inovadoras e inspiradoras em gestão de recursos hídricos selecionadas pelo GVces.

Braskem/SANASA - Movimento pela Redução de Perdas de Água na Distribuição: Lançada em novembro de 2015 no âmbito do Pacto Global e liderada pelas empresas Braskem e SANASA, esta iniciativa busca melhorar a eficiência da gestão de água no Brasil, enfrentando a perda d'água no sistema de distribuição urbano, através do esforço conjunto de governos, empresas e sociedade civil. A atuação deste projeto se inspira nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 e 17, que preconizam a parceria em prol das metas, com protagonismo do setor privado.

Carrefour Brasil - Comitê de Crise Hídrica: Durante a crise hídrica que afetou o abastecimento de água no Sudeste brasileiro, entre 2014 e 2015, a rede de hipermercados Carrefour fez um diagnóstico amplo sobre o consumo de água em suas unidades, definindo assim um mapa de criticidade que identificou locais com situação hídrica mais delicada, que precisariam de ações mais incisivas por parte da empresa. A partir desse diagnóstico, o Carrefour Brasil construiu um plano de ação integrada para segurança hídrica de suas operações, supervisionado por um comitê de crise hídrica composto por diferentes áreas e níveis da empresa. Desde então, o consumo hídrico de todas as unidades de negócio do Carrefour Brasil é monitorado por este comitê, que orienta possíveis ações e medidas preventivas para evitar cenários hídricos mais críticos no futuro.

Consórcio PCJ - Grupo de empresas: Considerando que 80% do total do uso de água nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) é destinado para consumo industrial, o Consórcio PCJ criou em 1999 um grupo de empresas com o objetivo de melhorar a disponibilidade hídrica para o setor, permitindo que as instalações existentes na região permanecessem e, ao mesmo tempo, criando uma nova cultura pela água na região. O grupo aproxima as empresas às atividades promovidas pelo Consórcio PCJ, através de encontros técnicos e atividades de consultoria nas áreas de gestão hídrica, saneamento, reflorestamento, resíduos sólidos, educação ambiental, elaboração de projetos e captação de recursos, mercado de carbono e reuso de água. As atividades do Grupo são importantes ainda para qualificar a participação das empresas em fóruns como os comitês de bacias da região.

JBS - Programa de Gestão Sustentável de Água: Este programa da JBS baseia-se em quatro pilares: a gestão sustentável da água, voltada para aumentar a eficiência no seu uso e reduzir o risco de desabastecimento; a integração, promovendo a padronização das estratégias, processos e sistemas de gestão; o gerenciamento integrado de projetos; e um sistema de gestão de indicadores sobre água, com objetivos, metas e métricas de desempenho, além de um modelo de governança. Os objetivos desse programa são mitigar o risco de desabastecimento e aumentar a eficiência no uso, identificar as plantas prioritárias e as microbacias hidrográficas críticas, mensurar impactos financeiros relacionados à água, e fornecer metodologias e ferramentas estratégicas para a tomada de decisão na priorização dos investimentos. O programa envolve a empresa como um todo, definindo uma abordagem que permitiu um olhar integrado para diferentes unidades, com perfis e negócios bastante distintos.]

NATURA - Pegada de água: A pegada desenvolvida pela Natura analisa a quantidade de água consumida pela empresa - a partir do índice de disponibilidade e estresse hídrico local - e a qualidade da água impactada pelas suas operações - a partir de diferentes tipos de impacto, como ecotoxicidade, eutrofização e acidificação. O projeto acumulou uma experiência significativa experimentando e adaptando métodos e critérios para construção e contabilização dos indicadores que são avaliados.

SANASA: Produção de água de reuso para fins urbanos: A partir de uma tecnologia inovadora para tratamento de esgoto, a SANASA aumentou a disponibilidade de água de reuso para fins de limpeza e manutenção urbana na região de Campinas (SP), permitindo a conservação da água potável captada na bacia do PCJ para consumo humano. O projeto pode representar o desenvolvimento de um novo modelo de negócio para a empresa e envolve ações no sentido de viabilizar a expansão da distribuição de água de reuso na região.

SPVS - ConBio Água - Proteção dos Mananciais: Realizado pela SPVS em parceria com o Programa pela Água do banco HSBC e a Fundação Grupo Boticário, este projeto procura promover ações de conservação nas áreas de mananciais e remanescentes florestais em áreas particulares da região metropolitana de Curitiba (PR) por meio da implantação de um mecanismo de pagamento por serviços ambientais (PSA). Por meio do projeto já foi possível institucionalizar o PSA, com amparo legal e aporte de recursos específicos, ampliando as perspectivas de perenidade da iniciativa.

TETRA PAK - Projeto Nascentes: Iniciado em 2013 pela TETRA PAK em parceria com a Associação Mata Ciliar, o Instituto Agronômico de Campinas e a Prefeitura Municipal de Vargem (SP), este projeto tem como objetivo a readequação da drenagem externa, melhorando a qualidade e a quantidade de água na bacia do Ribeirão dos Limas, além de neutralizar o consumo de água na fábrica da empresa na cidade de Monte Mor (SP). A iniciativa reforça a importância da articulação local com diferentes atores, tendo como elemento crítico de sucesso o engajamento de proprietários rurais da localidade.

TNC - Tapajós - Construindo uma visão de futuro: Promovido pela TNC-Brasil, a iniciativa visa a apoiar a gestão integrada da bacia do rio Tapajós, a partir de um guia aquático e territorial (blueprint) para políticas públicas e apoio à tomada de decisões de investimentos. A ferramenta desenvolvida pelo projeto encaminha a viabilização de uma avaliação ambiental estratégica na tomada de decisão sobre investimentos na região, possibilitando a antecipação de problemas comuns à grande parte dos empreendimentos já realizados no território.

WWF-Brasil - Construção do Observatório da Governança das Águas: Entre 2005 e 2015, a WWF-Brasil envolveu-se no processo de constituição do Observatório da Governança das Águas, uma iniciativa voltada para verificar se o sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos está cumprindo o seu papel diante da sua finalidade. A instituição conduziu estudos técnicos sobre o funcionamento das estruturas atuais de governança espalhadas pelo Brasil a partir de cinco dimensões - ambiente institucional, capacidades estatais, instrumentos de gestão, relações intergovernamentais, e a interação estado-sociedade. Com base nesses estudos, o WWF-Brasil orientou o processo de construção do Observatório a partir de 2016. A operacionalização do Observatório pode apoiar o levantamento e a sistematização de informações fundamentais para a avaliação do sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos, apoiando a avaliação das políticas e ações empreendidas em diferentes níveis, contribuindo para sua efetividade em diferentes regiões do país.

A apresentação dos casos na oficina, além de compartilhar os resultados da chamada de casos, contribuiu para a troca de experiências entre os casos e com as empresas-membro das Iniciativas Empresariais. Esse processo pode inspirar novas ações das empresas e contribuir com futuras articulações para continuidade e aprimoramento dos casos selecionados. Os dez casos selecionados serão ainda detalhados na publicação final do ciclo 2016 das Iniciativas Empresariais do GVces, previsto para o começo do próximo ano.

Fotos: Roberta Boccalini/GVces