Jornada Empresarial Terceira Margem 2016 - Vale do Paraíba

A 3ª edição da Jornada Empresarial Terceira Margem levou representantes das organizações membros das Iniciativas Empresariais do GVces à região do Vale do Paraíba para uma imersão em um território onde as questões da sustentabilidade podem ser compreendidas de maneira integrada 30/09/2016
COMPARTILHE

(Foto: Alexandre Kavati)

Por Manuela Santos (GVces)

Em 2016, pela primeira vez, o Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces) está abordando em suas Iniciativas Empresariais um mesmo tema de maneira transversal: Empresas pelo Clima (EPC), Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), Desenvolvimento Local & Grandes Empreendimentos (ID Local), Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) e Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) trazem cada uma sua contribuição para a questão da Gestão de Recursos Hídricos.

Como parte das atividades, além dos encontros realizados entre os representantes das empresas e a equipe do GVces e da chamada de casos inovadores no tema, foi realizada entre os dias 24 e 26 de agosto a 3ª edição da Jornada Empresarial Terceira Margem, uma viagem de campo em que os representantes das empresas membro têm a oportunidade de fazer uma imersão em um território onde questões da sustentabilidade podem ser compreendidas de maneira integrada e na complexidade com que se dão na prática.

Tendo Gestão de Recursos Hídricos como foco, neste ano nosso destino não podia deixar de ser uma região com experiências a se visitar no tema e, pensando nisso, o local visitado pelo grupo foi a região do Vale do Paraíba, que reúne elementos ligados a governança de bacias, forte presença empresarial, projetos de PSA e outras iniciativas ligadas ao cuidado com a água,  em um rio que nasce em São Paulo, passa por Minas Gerais e desemboca no Rio de Janeiro, contribuindo para o abastecimento da região metropolitana de sua capital.

Estiveram presentes nessa viagem 13 representantes das empresas membro do grupo, além da equipe do GVces e de uma representante da GIZ, Agência Alemã de Cooperação Internacional, parceira na realização da atividade.

Veja abaixo um relato do campo.

1º dia

O grupo se encontrou em São Paulo cedo e partiu para Volta Redonda, nosso primeiro destino na jornada. A primeira parada foi a Usina Presidente Vargas da CSN, a Companhia Siderúrgica Nacional.

A planta, que ocupa uma área de 4km2 e tem a maior operação de siderurgia integrada da América Latina, fica às margens do rio Paraíba, de onde capta sua água. Lá o grupo teve a chance de conhecer os diversos produtos fabricados com matéria-prima provenientes da unidade, desde peças de carros até latas de alimentos que consumimos diariamente. Após uma introdução à empresa, fomos recebidos pela equipe que cuida da gestão de recursos hídricos da unidade e que desenvolveu nos últimos anos um projeto de cálculo da pegada hídrica, um dos temas que abordamos nas iE nesse ano. Além disso, o grupo teve a chance de ouvir do Simões, o especialista em meio ambiente da unidade que conduziu a apresentação, sobre a participação da empresa nos comitês de bacia em que estão presentes – o que foi um ótimo aperitivo para o que viria no dia seguinte e despertou o interesse nos participantes da jornada sobre as vantagens da participação em comitês de bacia e a importância de se envolver em câmaras técnicas de discussão, como uma das estratégias de influenciar as decisões dos comitês.  

Após a explanação, o grupo teve a chance de visitar os pontos de captação e descarte da empresa no rio, uma operação de grandes proporções e alta complexidade.

No final do dia, o grupo da jornada se reuniu no hotel para falar sobre expectativas em relação à viagem e o que já tinham visto naquele dia, além de nos preparamos para o 2º dia, que seria muito intenso.

2º dia

Começamos cedo no 2º dia, participando de uma reunião com membros da diretoria do Comitê Médio Paraíba do Sul e da AGEVAP, a agência que executa os projetos deliberados pelos comitês atuantes nas bacias do rio. Ficamos conhecendo uma governança complexa, que envolve diversos municípios, os três estados por onde passa o rio (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro) e uma série de atores importantes: a ANA - Agência Nacional de Águas, empresas (incluindo a CSN), organizações da sociedade civil, entre outros.

Na conversa, entendemos como funcionam os mecanismos de financiamento do comitê, o modelo de cobrança pelo uso da água, em que o Paraíba do Sul foi pioneiro, e a relação com outras bacias, em especial a do rio Guandu, que recebe uma quantidade de água transposta do Paraíba do Sul e que é responsável por abastecer parte da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Dentre os projetos concebidos no comitê estão o PSA Hídrico, ações de educação ambiental e questões ligadas a saneamento básico, que ainda tem um déficit na região.

Após a reunião, deixamos Volta Redonda e pegamos estrada rumo a Lídice, um distrito do município de Rio Claro, onde uma ONG local – o Instituto Terra de Preservação Ambiental – executa um projeto de PSA em parceria com a TNC – The Nature Conservancy.

Quem acompanhou a visita foram o Hendrik Mansur, especialista em conservação da TNC, e o Iran Borges, técnico do ITPA.

Eles nos levaram até a propriedade do Seu Carlinhos, um dos primeiros agricultores da região a aderir ao projeto, que nos mostrou as áreas reflorestadas em seu sítio e proporcionou um momento de inspiração ao grupo, ao relatar sua experiência no replantio de árvores nativas e seu cuidado ao introduzir espécies que sejam fonte de alimento para os animais da região, indo muito além do previsto pelo projeto de PSA.

Seu Carlinhos também nos contou da dificuldade em convencer os vizinhos a participarem do projeto, pois muitos desconfiavam dos reais objetivos e tinham receio de abrir sua propriedade para os técnicos responsáveis pelo plantio. Após a adesão dele, no entanto, os vizinhos passaram a ver os benefícios e resolveram entrar para o PSA. Como também nos relatou Hendrik, é muito importante o engajamento das pessoas para o projeto dar certo, e muitas vezes esse processo começa com uma propriedade, que serve de modelo, e acaba atraindo as outras.

Saindo da propriedade do Seu Carlinhos, fomos para nossa pousada para descansar para nosso último dia em campo.

3º dia

Nosso último dia em campo foi dedicado a se aproximar um pouco mais da natureza e de outras facetas da água que não só os fins produtivos e de abastecimento: guiados pelo Hendrik, da TNC, o grupo percorreu um caminho margeando o rio que abastece Lídice e que leva a uma bela cachoeira.

Em contato com um cenário que com certeza difere-se da realidade diária do grupo, cuja maioria trabalha em escritório, fizemos o encerramento da jornada, compartilhando aquilo que mais tocou cada um e como os aprendizados poderiam ser levados de volta e incorporados às atividades da empresa.

As mensagens que ficaram mais fortes foram em relação às possibilidades de atuação no tema gestão de recursos hídricos que ainda não estão sendo efetivamente colocadas em prática e que têm grande potencial, como a participação em comitês de bacia e outros espaços de discussão coletiva, a importância de se relacionar com uma diversidade de atores, realizar parcerias etc.

Além disso, a experiência mostrou-se uma excelente oportunidade de integração, não só entre os temas que vimos em campo, mas também entre as diferentes empresas participantes.