Jornada Empresarial Terceira Margem 2019 – Vale do Ribeira

27/08/2019
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Durante a 6ª edição da Jornada Empresarial Terceira Margem, que aconteceu nos dias 7, 8 e 9 de agosto de 2019, 20 participantes das Iniciativas Empresariais (iE) do FGVces visitaram os munícipios - e seus arredores - de Miracatu e Juquiá, ambos localizados na porção paulista do Vale do Ribeira. Representando empresas de diferentes setores, as quais vêm trabalhando no ciclo 2019 das iE em torno de três Desafios relacionados ao fortalecimento de aspectos socioambientais na estratégia e tomadas de decisão dos negócios (clique aqui para saber mais sobre os Desafios), as pessoas presentes nessa imersão puderam conversar com atores locais e conhecer algumas narrativas, e suas nuances, presentes no território sobre desenvolvimento, sustentabilidade, cultura e tradição. 

A principal intenção da Jornada foi aprender com o campo e suas vozes, possibilitando a expansão da percepção da realidade, num formato que integrou teoria, prática, conhecimentos formais e sensibilidade. Assim, a experiência trouxe inspirações, novas perguntas e reflexões profundas sobre questões que permeiam a sustentabilidade, o dia a dia dos negócios e suas relações com organizações, grupos e pessoas. Em adição, a Jornada foi uma oportunidade de pesquisa e investigação dos temas relacionados aos três Desafios, oferecendo, durante as conversas e vivências, conteúdos diversos (e diferentes!) sobre o valor da sustentabilidade, direitos humanos, diálogo, cadeias de valor, comunicação, governança territorial, articulação e parcerias, desenvolvimento local, pensamento de ciclo de vida, produtos ‘sustentáveis’, visão sistêmica,, entre outros.

Nesta edição da Jornada, a equipe do FGVces se deparou com a missão de encontrar um território que congregasse questões fundamentais relacionadas aos três Desafios em foco no ciclo 2019. Pela história, pela representatividade das expressões culturais brasileiras, pelos reais e potenciais conflitos, de interesses, necessidades e desejos, e, assim, pela complexidade inerente, o Vale do Ribeira é um território rico em aprendizagem e potencialidades, especialmente, porque traz questões aparentemente inconciliáveis e contraditórias, mas que têm coexistido  na busca por um modelo de desenvolvimento justo, inclusivo, sustentável. 

Partindo de São Paulo, o primeiro destino foi a Comunidade Remanescente de Quilombo de Morro Seco, localizada no município de Iguape, que já foi o maior produtor de arroz do mundo e que viveu a decadência desta cultura. Em uma roda de conversa com representantes de diferentes gerações, regada de emoções pelas histórias contadas e animada pelo interesse pelos modos de vida tradicionais e atuais, foram introduzidas ao grupo questões inerentes ao modelo de conservação ambiental imposto pela legislação brasileira às comunidades tradicionais, que vai de encontro aos modos tradicionais e centenários de produção agrícola integrados à Mata Atlântica; ressaltou-se aqui a distância das políticas públicas e das decisões em relação à realidade e às necessidades locais. Sensibilizados com a receptividade e autenticidade dos representantes da Comunidade, o grupo saiu com a frase do Sr. Armando Roberto Pereira, comunitário de 85 anos, latente na memória: “Visita traz esperança, significa que a gente existe.”


Entre Morro Seco e a Prefeitura de Miracatu, Ivy Wiens, do escritório regional do Instituto Socioambiental (ISA), compartilhou a visão e experiência de uma organização que atua há aproximadamente 10 anos no Vale do Ribeira apoiando a construção de um modelo de desenvolvimento regional pautado na riqueza socioambiental da Mata Atlântica, sempre em parceria com associações quilombolas locais, prefeituras e organizações da sociedade civil, de modo que os projetos considerem geração de renda, conservação e melhoria da qualidade de vida das comunidades tradicionais da região. 

À tarde, o grupo se dividiu em conversas paralelas no município de Miracatu, focadas nos temas de cada Desafio. Na Prefeitura Municipal de Miracatu, participantes do Desafio 2 conversaram sobre desenvolvimento territorial à luz do Plano Estratégico de Desenvolvimento e dos ODS e sobre relações e parcerias da Prefeitura com a iniciativa privada com o Prefeito Ezigomar Pessoa Junior e o vice-presidente do CODIVAR (Consórcio de Desenvolvimento Intermunicipal do Vale do Ribeira e Litoral Sul), Wilber Rossini. O grupo do Desafio 1 refletiu sobre oportunidades e desafios das atividades econômicas no Vale diante das exigências do licenciamento ambiental e considerando o histórico dos ciclos econômicos anteriores, com o educador ambiental e consultor André Pedro Noffs. Na sede e showroom da Cooperativa Banarte, que produz artigos de moda e decoração a partir de fibras naturais da banana, participantes do Desafio 3 conversaram com as mulheres artesãs sobre as etapas do ciclo de vida dos produtos desenvolvidos por elas, conversa em que emergiram, com certa naturalidade, as questões e preocupações socioambientais do processo.


Ao cair da noite, todos juntos na Banarte, escutaram Adriano Pereira, guia turístico e representante do COMTUR – Miracatu (Conselho Municipal de Turismo), e o Sr. Chico Mandira, líder comunitário do Quilombo do Mandira, localizado na Reserva Extrativista do Mandira na zona costeira limítrofe dos Estados de SP e PR. Duas falas que trouxeram, ao mesmo tempo, as problemáticas para a produção de ostras na região do mangue e para o desenvolvimento do ecoturismo, e as ações concretas que lidam – ou que têm potencialidade para lidar – com os desafios de geração de renda, articulação comunitária e associativismo, preservação ambiental, comunicação e vendas. 

No segundo dia, pegamos a estrada cedo em direção ao Legado das Águas, um território assim institucionalizado pela Votorantim em 2012 como reserva privada, que abriga 1,5% dos 9% de Mata Atlântica remanescente no Estado de São Paulo. Sendo uma filial da empresa Reservas Votorantim Ltda., o Legado é uma propriedade dedicada ao uso público, à educação ambiental, à proteção de espécies, aos estudos científicos e ao desenvolvimento econômico da região. A fala introdutória sobre o Legado e as boas vindas foram dadas pelo diretor da Reservas Votorantim, David Canassa. Divididos nos grupos dos Desafios, três conversas sobre a experiência e o modelo de negócios do Legado aconteceram paralelamente: Desafio 1 com Salete Vicentini, responsável pelas operações; Desafio 2 com Daniela Gerdenits, responsável por Responsabilidade Social Empresarial e desenvolvimento local; e o Desafio 3 com Willian de Souza, responsável pelos produtos turísticos e uso público. 

À noite, o grupo participou de uma conversa sobre oportunidades, necessidades de investimentos e de tecnologia para a agricultura e os desafios trazidos à atividade e às comunidades pela lógica do mercado e pela legislação ambiental. A roda de conversa reuniu o Secretário Municipal de Agricultura e Meio Ambiente de Juquiá, Rafael Guimarães, e cinco representantes / associados da Cooper Central Vale do Ribeira, uma cooperativa de grupos de produtores rurais da região do Vale.  


No último dia, depois de uma trilha pela exuberância do bioma Mata Atlântica e uma visita ao viveiro de plantas nativas, encerramos a Jornada com atividades de organização e sistematização das experiências vividas e do conhecimento, relacionando-os com os Desafios. As atividades em grupo também revelaram a sutil sensibilidade de como a Jornada ressoou em cada participante.

A experiência trouxe novas ideias e energia para as entregas que os grupos desenvolverão ao longo dos próximos meses e apresentarão ao final do ano, no Fórum das iE!