Jornada Empresarial “Terceira Margem”

Saiba como foi a experiência de campo dos membros das Iniciativas Empresariais do GVces 01/09/2013
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Bruno Toledo e Manuela Santos

Como parte da agenda de integração das Iniciativas Empresariais do GVces, o Centro promoveu entre 31 de julho e 02 de agosto a Jornada Empresarial de Aprendizagem "Terceira Margem", uma viagem de imersão que contou com a parceria da Aoka e a presença de representantes de empresas membro da Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), das Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), da Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local) e do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV).

O local escolhido para a imersão foi Extrema, cidade mineira localizada numa região serrana de Mata Atlântica na divisa com São Paulo. As nascentes dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari – que fornecem água para o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de mais de 50% da cidade de São Paulo – se localizam nesta região.

Essas características peculiares contribuíram para que fosse desenvolvido em Extrema o Projeto Conservador das Águas, com o objetivo de proteger e reflorestar matas nativas e Áreas de Preservação Permanente (APPs), de forma a conservar os recursos hídricos, reduzir a erosão, aumentar a infiltração e conservar áreas com boa cobertura vegetal.

Para isso, uma articulação multissetorial provê o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) aos produtores rurais que cedem um pedaço da sua terra para o plantio de árvores no entorno das nascentes em suas propriedades. Além do benefício financeiro, são instaladas cercas de proteção nas propriedades.

A partir de uma visão integrada dos temas trabalhados pelas Iniciativas Empresariais (clima, desenvolvimento local, cadeia de valor e serviços ecossistêmicos), o objetivo da Jornada foi apreender, em uma prática inovadora em sustentabilidade, a teia de relacionamentos que envolve empresas, famílias, organizações da sociedade civil e governos para a solução de um desafio socioambiental em comum.

Participaram da viagem de campo representantes de cinco empresas que fazem parte das Iniciativas Empresariais: Anglo American, Grupo Abril, Grupo Boticário, Banco Itaú e Copel.

Confira abaixo o relato de Manuela Santos, pesquisadora do GVces que acompanhou a Jornada Empresarial de Aprendizagem em Extrema.

Logo na nossa chegada, dia 31 de julho de manhã, fomos ao mirante da Serra do Lopo, para fazer uma abertura de nossa jornada e uma colheita de expectativas com os participantes, em um lugar de vista privilegiada, que chegava a quilômetros de distância e permitia uma compreensão da bacia hidrográfica sobre a qual se desenvolve o Programa que visitaríamos durante nossos dias na região.

O 2º dia em campo foi composto de uma série de diálogos com diferentes atores locais e, para que nossa conversa fosse mais produtiva, realizamos na noite anterior no hotel Ponto-de-Luz, onde nos hospedamos, uma dinâmica baseada no texto “The Art of Powerful Questions”, através da qual definimos as perguntas norteadoras de nossas conversas e, além disso, as lentes com as quais iríamos a campo iniciar a nossa investigação sobre o Programa e suas relações:

1) Continuidade, expansão e replicabilidade;

2) Governança;

3) Negociações e relações de parceria;

4) Motivações para participação;

5) Métricas, resultados e valoração; e

6) Financiamento.

Com cada membro munido de uma ou mais das lentes acima, nosso 2º dia de jornada começou bem cedo, com uma visita muito agradável à propriedade do Seu Hélio, um dos pequenos agricultores beneficiários do Programa, que recebe uma renda complementar à da venda de leite e de alguns outros produtos de sua roça (como feijão e milho) por ceder um pedaço de sua terra para a plantação de mudas - cuja maioria é doada pela S.O.S. Mata Atlântica - com o objetivo de preservar nascentes em sua propriedade.

Além de termos acompanhado a ordenha de seu rebanho, tomamos com ele um café da manhã bem caseiro, com produtos vindos ali da propriedade dele, e pudemos ouvi-lo contar sua participação no Programa e, é claro, bons “causos” da roça.

Após o café, seguimos com o técnico da Secretaria do Meio Ambiente de Extrema, o Sr. Arlindo, que faz as negociações com cada produtor rural que adere ao Programa e acompanha a sua gestão, para observar a plantação de mudas em uma parte do terreno cedida pelo Seu Hélio. Além de termos nos surpreendido pelas tecnologias que facilitam o trabalho daquele que faz o plantio e com o uso do hidrogel, para garantir água à planta em seus primeiros dias, tivemos a sorte de encontrar uma nascente que foi recuperada!

Saindo de lá, após um pouco de estrada de terra, chegamos à Secretaria do Meio Ambiente de Extrema, onde o secretário Paulo Henrique Pereira (Paulinho) nos recebeu para contar o histórico e o desenvolvimento do Programa no município. Estavam com ele complementando a fala duas representantes da Agência das Bacias PCJ, a Helena Gonçalves e a Elaine de Campos.

Eles nos contaram que o Programa começou em 2007 com poucos recursos, tanto financeiros quanto e materiais: contavam com apenas dois plantadores de muda (que o faziam manualmente) e uma mula para transporte. Com o passar do tempo e a boa aderência de agricultores, o Programa foi ganhando mais parceiros e hoje remunera mais de 100 produtores rurais com recursos da ANA (Agência Nacional de Águas), Governo de Minas Gerais, Prefeitura de Extrema, PCJ e ONGs e empresas da região.

Em adição ao objetivo inicial, que era proteger e recuperar as nascentes da região, o sucesso do Programa acabou atraindo empresas para a região, que ali se instalaram pela qualidade da água e pela boa gestão ambiental em geral. A meta atual é que, até 2030, 40% da área do município seja de cobertura florestal e, para isso, em alguns casos, a prefeitura compra algumas áreas para plantio e a transforam em Unidades de Conservação.

É interessante notar que parte do sucesso do Programa se deve a uma peculiaridade da gestão municipal, pois há 20 anos o mesmo grupo governa a cidade, mesmo havendo oposição, o que permite a manutenção de Programa, que requer uma visão de longo prazo. Soma-se a essa sequência de mandatos a gestão do Programa ser centralizada na Secretaria do Meio Ambiente, o que a torna mais eficiente.

Nossa última conversa do dia foi na Bauducco, empresa com fábrica estabelecida no distrito industrial de Extrema que financia o Programa com o objetivo de compensar os impactos da pegada hídrica de sua produção através do plantio de mudas em área de proteção de nascentes. Ficou muito claro em nossa conversa com os responsáveis da área ambiental que a motivação principal para a escolha em contribuir com o Conservador das Águas, em vez de compensar seus impactos de outra maneira foi o fato do Programa já estar bem estabelecido, com resultados, e uma grande confiança em sua gestão.

Após a conversa, tivemos a oportunidade conhecer a produção de biscoitos e panetones da empresa.

Nosso 3º e último dia de jornada foi dedicado à reflexão de tudo aquilo que pudemos viver nos dias anteriores e à produção de uma representação figurativa das relações interpessoais e multissetoriais que permitem a existência do Programa (na imagem ao lado).

De volta à São Paulo, em 27 de agosto fizemos um encontro pós-viagem para complementar a nossa experiência em campo com conteúdo técnico e conceitual sobre PSA, serviços ecossistêmicos, casos de projetos similares em outras regiões e tirar algumas dúvidas dos participantes. Para isso, contamos com a participação de Renato Armelin, coordenador do Programa Sustentabilidade Global do GVces e da Iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos - TeSE.

Com essa primeira experiência integradora no âmbito das Iniciativas Empresariais o GVces fortaleceu a sua crença de que experiências em campo são um espaço privilegiado de aprendizagem, troca de experiências e desenvolvimento pessoal.

Para os próximos ciclos, já a partir de 2014, esperamos contar com cada vez mais representantes de empresas conosco nessa jornada e explorar temas em sustentabilidade que representem ao mesmo tempo desafio e inspiração às empresas.

Fotos: Manuela Santos (GVces)