Revista Página22 :: ed. 24 (outubro/2008)

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EDITORIAL - No andar térreo

O noticiário econômico dos últimos meses tem sido revelador. Enquanto o coração do sistema financeiro internacional derrete diante das extravagâncias movidas a lucro fácil, alguns países periféricos parecem romper a barreira da pobreza. O Brasil, que já foi chamado de Terceiro Mundo, nação em desenvolvimento, mercado emergente e um dos BRICs, agora entrou para a classe média.

A renda, sem dúvida, aumentou. Há que se louvar os esforços do governo em levar condições mínimas para a população mais carente, mas seriam necessários 18 anos de redução das desigualdades nesse ritmo para que o País atingisse o patamar dos ditos desenvolvidos. O fosso continua aberto, e profundo.

E expõe a ferida da sustentabilidade. É possível o desenvolvimento ser sustentável quando o meio ambiente é alvo de preocupação para os mais ricos, mas a maioria da população vive na pele a degradação ambiental? É factível exigir as melhores práticas quando a massa de pequenas empresas mal consegue sobreviver? É cabível assumir que mais renda signifi ca, automaticamente, mais qualidade de vida?

Assim como os países emergentes que tentam seguir o caminho de seus pares desenvolvidos, a população que integra as chamadas classes C e D almeja o padrão de vida do quinhão privilegiado da sociedade. É certo negar-lhes o direito? Não, e não falta quem queira explorar comercialmente a chamada base da pirâmide. Melhor, porém, é construir alternativas.

É preciso lidar com o fato de que um enorme contingente de empresas e produtores se vêem despreparados para responder às regras e standards da sustentabilidade. É urgente atacar os pedágios fi nanceiros, a monopolização do conhecimento e a má gestão, nas esferas pública e privada. É essencial entender como as questões ambientais atingem as populações mais pobres, e forjar políticas de redução da pobreza com governança ambiental.

Quanto mais complexo e interdependente o mundo, é mais difícil vencer, enquanto tantos outros continuam perdendo. É hora de o jet set pôr os pés no chão.

Boa Leitura

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